Ontem foi sábado e resolvi dar um pulo no ferro-velho aqui da cidade pra ver as “novidades”. Ferro-velho é um lugar interessante, assim como sebos e outras lojas de produtos usados. Normalmente o dono e/ou atendente (na maioria dos casos só tem o dono) não sabe muito sobre a mercadoria que está vendendo ou se sabe é só de alguns em especifico. Por isso os preços variam muito conforme o local. É comum o dono de ferro-velho que entende mais de materiais de construção do que de aparelhos eletrônicos.

Esse fato é importante. Sempre procure o estabelecimento com maior variedade de produtos. Em lojas especificas, como sebos só de gibis ou só de discos, os preços sempre são mais caros. Nestas lojas não tem conversa, pois o dono sabe o que está vendendo. No meu caso eu costumo freqüentar um sebo que tem discos, livros, gibis e outros itens, onde o dono entende mais de discos. A Séfora montou uma biblioteca enorme na casa dela e de sua mãe só comprando neste sebo.
No caso do ferro-velho que eu fui o cara parece entender mais de material de construção e moveis. Na parte de fora ele costuma colocar os produtos que ele tem certeza que chamarão atenção e vão vender mais fácil. Na visita de ontem chegamos por volta das nove da manhã e a Séfora (sim, não consigo me livrar dela) viu um vidro enorme que talvez servisse de tampo para uma mesa que ela tem. Ela perguntou ao dono o preço e ele nos mediu com os olhos e disse um preço. Aí vem o segundo ponto que gostaria de comentar: evite demonstrar saber o que está comprando e, principalmente, evite demonstrar emoções. Se você se mostrar muito entusiasmado para comprar o cara vai dar um preço muito maior que o normal. Quanto menos interesse você demonstrar melhor.

Uma característica das lojas de produtos usados é que se você comprar muitos itens de uma vez você ganha um desconto. Então de um passeio antes pela loja e veja se tem algo mais que lhe interesse. Junte tudo no final e pergunte o preço do lote todo. Sempre com a maior frieza possível, mesmo que no meio do lote esteja uma “Pato Donald” número 1 da Abril.
Continuando no ferro-velho, demos uma volta enquanto a Séfora pensava se compensava sobre o tampo de vidro. Perguntei ao dono se ele tinha algumas placas de eletrônicos e ele me levou até elas. Normalmente elas são vendidas por quilo, por isso eu prefiro pegar aquelas sem componentes pesados (transformadores) e que sejam pequenas. Assim consigo maior variedade de componentes com um peso menor. Enquanto olhava as placas a Séfora chamou minha atenção para algo enorme: uma velha máquina de fliperama. Olhei interessado pra ela e perguntei ao dono se ele vendia as placas da máquina também e ele disse que sim. Seguindo a regra de não demonstrar interesse continuei fuçando nas placas anteriores.

Só fui ver a máquina um tempo depois. Dei uma passada por ela, abri e olhei dentro. Não parecia muito nova. Pela placa sem componentes SMD já chutei no mínimo uns 15 anos. Difícil saber mais pela sujeira geral da coisa. A máquina parecia estar quase completa, faltando apenas a parte dos botões e joystick que algum espertinho deve ter comprado antes de mim. Olhei mais um pouco e fui até o ajudante do dono e perguntei se ele tinha uma chave de fenda. Ele estranhou mas expliquei que o dono disse que eu poderia comprar as placas da maquina. Ele me mostrou a caixa de ferramentas onde peguei a chave. Então, mais um item para se lembrar: leve as suas ferramentas, uma chave de fenda, uma Philips e um alicate de corte seria o ideal no meu caso.

Puxei uma carteira escolar que tinha perto da maquina, sentei e comecei o trabalho de desmontagem. O ajudante foi chegando perto e acabou perguntando se eu estava tirando a “memória” da máquina. Respondi apenas que ia tirar a placa pra ver se eu conseguia recuperar. Neste ponto já acendeu a luz de alerta e me apressei em retirar a placa. Segundo o marido da Séfora eu deveria ter dito que ia ver se ela servia para escorar o pé da mesa de casa.
E a Séfora não ajudou muito quando começou a tirar fotos do processo de desmontagem. Em seguida lá estava o dono do meu lado olhando. E ele veio e disse “Placa assim eu vendo por R$5,00 separado”. Lá se foi a pesagem, agora era apressar o passo antes que o preço subisse mais ainda. Chegamos naquele ponto onde o dono do sebo ou ferro-velho descobre que você sabe mais do que ele. Daí em diante tudo passa a ser mais caro, já que na cabeça dele você é que está saindo no lucro.
Como não sabia que maquina era aquela só tirei a placa principal, a do monitor era uma comum e a outra era só a fonte e o amplificador de áudio. Por não saber o tamanho da mesa a Séfora ficou sem o tampo de vidro que acabou sendo comprada por outra cliente.

Este post era pra o
meu blog de eletrônica, mas a Séfora pediu pra trazer pra cá. Vou ver se faço um post por lá sobre a placa que encontrei, aqui não é lugar pra falar destes assuntos. Mas posso adiantar que foi uma boa compra. A máquina é de fabricação nacional e data de 1989 mais ou menos. Depois de uma limpeza consegui ler o código dos componentes e as etiquetas das EPROM’s acabaram indicando que era um MSX modificado para fliperama, com o jogo Knightmare. Uma dessas maluquices de hardware criadas pelo jeitinho brasileiro na época da reserva de mercado. O Alexandre (Tabajara)
já havia falado delas há algum tempo e depois acabou encontrando uma placa da Fort Games.
Comentário da Séfora: hoje o Voyage veio me falando que na próxima visita ao ferro-velho a gente tem que ir mais mal vestido e com mais cara de pobre. Aí eu pensei: como? Mais pobre AINDA? Eu tava de jeans e camiseta branca e nem tinha penteado o cabelo... Além do mais eu tava com uma dor de cabeça do cão. Devia estar com uma cara horrível. O jeito então é arrancar uns dentes da frente, passar pó de café molhado na cara, óleo de soja no cabelo e falar: "O senhor vende vrido aqui?”.
Ah! outra dica, se perguntarem sua profissão nunca diga a verdade...